Vacinação e autismo sem conexão

Foto de um vidro com a vacina e uma seringa ao lado.Em 1998, um médico britânico publicou na renomada revista especializada Lancet um artigo afirmando que havia encontrado relação entre a vacina tríplice – sarampo, caxumba e rubéola – e o desenvolvimento de autismo. A grave afirmação baseava-se em estudo que ele conduziu com apenas 12 crianças, um número ínfimo, muito diferente das amostragens de pesquisas sobre imunização que incluem centenas, senão milhares, de participantes. Não demorou para que a comunidade médica se lançasse contra o trabalho, classificado pela respeitável revista The British Medical Journal (BMJ) como fraudulento. Dois anos depois, a Lancet se retratou, admitindo que o artigo não tinha validade científica. A leviandade do médico lhe rendeu não só a execração no meio – no fim, ele perdeu a licença.

Um repórter do BMJ  foi atrás da história e constatou que a pesquisa do britânico não passava de uma invenção grosseira. Três crianças da amostra sequer tinham autismo e cinco já haviam sido diagnosticadas com a síndrome antes de serem vacinadas. Descobriu-se que as famílias participantes do estudo haviam sido recrutadas entre ativistas anti-imunização e a ideia era utilizar o pseudo trabalho científico para tentar indenizações milionárias na Justiça.

Agora, mais um trabalho evidencia que não há qualquer relação entre autismo e vacina tríplice. Publicado na Revista da Associação Médica Americana (Jama), o estudo conduzido pela empresa de consultoria em saúde Lewan Group a pedido dos institutos de saúde mental dos EUA avaliou dados de 95 mil crianças com irmãos mais velhos. O fato de terem sido vacinadas não aumentou o risco para distúrbio do espectro autista, independentemente de esses meninos e essas meninas terem irmãos com o problema, um conhecido fator de risco. Mesmo entre aqueles com potencial elevado de desenvolver o autismo – filhos de pais mais velhos, crianças com peso extremamente baixo ao nascer, prematuros e pessoas com mutações genéticas –, a vacina não aumentou essas chances.

 “Apesar de um corpo substancial de pesquisas ao longo dos últimos 15 anos não ter encontrado ligação entre a vacina tríplice e o autismo, pais e outras pessoas continuam a associá-la ao transtorno do espectro autista. Pesquisas com quem tem filhos com autismo sugerem que muitos acreditam que a vacina foi um fator que contribuiu”, observa a pediatra Anjali Jain, pesquisadora do Lewin Group. “Essa crença, combinada com o conhecimento de que irmãos mais novos de crianças com autismo já têm um risco genético maior comparado à população em geral, pode estimular esses pais a evitar vacinar os caçulas”, diz.

Movimento Quando as constatações sobre a fraude do artigo de 1998 vieram à tona, já era tarde. O estudo foi a munição que faltava aos grupos antivacina, formados principalmente por leigos que, nos Estados Unidos, evocam o direito de os pais optarem por não imunizar seus filhos. Sem nenhum respaldo da ciência, essas pessoas alegam que o procedimento faz mal à saúde e espalham, principalmente pela internet, teorias conspiratórias, arregimentando famílias que, assustadas, decidem não proteger as crianças, achando que estão escolhendo o melhor para elas.

O resultado desse movimento está nas estatísticas do CDC, órgão de vigilância sanitária dos EUA. O país havia eliminado o sarampo em 2000, registrando menos de 100 casos por ano desde então. Mas, no ano passado, foram 644 ocorrências em 27 estados, o pior cenário em 20 anos. Tudo indica que, em 2015, a situação será mais grave. De 1º de janeiro a 17 de abril, 162 pessoas de 19 estados e do distrito de Columbia tiveram a doença em quatro surtos, sendo o pior deles na Califórnia. Cento e dezessete crianças foram infectadas no parque da Disneylândia.

Embora as leis californianas exijam que alunos de escolas públicas sejam imunizados, os pais e responsáveis têm o direito de alegar causas pessoais ou “filosóficas” para não fazê-lo. Apenas no Mississipi e em West Virginia esse argumento não é aceito. No Colorado, o percentual de famílias que se recusam a vacinar as crianças por motivos pessoais ou filosóficos é de 18%, o mais alto nos EUA.

Ainda que não sejam maioria, os adeptos do movimento anti-imunizações acabam provocando surtos porque seus filhos não vacinados passam a doença para crianças que, devido à idade, não receberam todas as doses ou, com a imunidade baixa, ficam mais suscetíveis a se infectar. Para tentar conter os surtos, as escolas estão mandando para casa as crianças que não receberam vacina. Mas essa medida não elimina totalmente os riscos. O sarampo é transmitido pelo ar. Portanto, na rua, na igreja ou no shopping, por exemplo, é impossível saber quem foi e quem não foi vacinado.

 Às vezes, uma única criança espalha a doença para várias. Foi o que ocorreu em San Diego em 2008. Um garoto não vacinado de 7 anos pegou sarampo em uma viagem para a Suíça e, na volta, infectou 11 crianças que não haviam sido imunizadas. No fim, 839 pessoas ficaram expostas ao vírus e um bebê chegou a ser internado entre a vida e a morte.

No Brasil, desde 2000, não há casos autóctones de sarampo. Contudo, o surto da doença no Ceará, que já dura 15 meses, com 796 casos confirmados até 15 de março, poderá fazer com que o país volte a considerar o vírus como circulante. Aqui, o movimento antivacina não é organizado e, embora alguns pais se recusem a imunizar as crianças – em fóruns de discussão na internet, há muitas mensagens sobre isso –, são casos isolados. Ainda assim, em 2011, quando o estado de São Paulo registrou 26 casos da doença, verificou-se que 60% das crianças que pegaram sarampo não haviam sido vacinadas por opção dos pais.

Fonte: site do Jornal Estado de Minas por Paloma Oliveto.

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