Pessoas com menos de 30% da capacidade visual expõem em livro os desafios do cotidiano

Fernanda Shcolnik só bebe água em copo colorido, de vez em quando chuta um de seus dois gatos — Oswald e Sol — e mantém os objetos de casa sempre no mesmo lugar. Não se trata de mania, muito menos crueldade: a carioca faz parte de um vasto grupo de brasileiros que têm baixa visão, isto é, menos de 30% da acuidade visual. Se ela deixa um copo d’água transparente sobre uma mesa, por exemplo, é grande o risco de ela esbarrar nele e derrubá-lo, simplesmente porque não consegue vê-lo. Para mostrar essas e outras particularidades do dia a dia de quem tem essa condição, Fernanda e outros 18 autores escreveram o livro “Histórias de baixa visão” (Editora CRV), que teve lançamento no Rio em fins de dezembro e será lançado em São Paulo em 27 de janeiro.

Em todo o Brasil, existem 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas, desse total, apenas 500 mil são cegos. Os outros seis milhões de indivíduos têm baixa visão.

No caso de Fernanda, a deficiência decorre de uma doença genética chamada retinose pigmentar, que faz o capo visual diminuir com o tempo, levando à perda da visão periférica e da acuidade. Algumas pessoas com essa doença ficam, eventualmente, cegas. Outras envelhecem ainda com baixa visão. Hoje, Fernanda tem dificuldade de distinguir formas a menos de dois metros de distância, mas usa óculos para apenas dois graus de miopia e tem a anatomia dos olhos preservada — não tem o globo ocular branco, por exemplo. Por isso, quem a vê não é capaz de dizer que ela tem alguma deficiência.

— Eu vivo num limbo que é socialmente delicado. Porque a maioria das pessoas não entende (essa deficiência), então, para facilitar, é comum a gente ter que fingir ora que enxerga bem, ora que é cego — conta Fernanda, de 34 anos.

Embora, desde criança, ela tenha extrema dificuldade de enxergar no escuro, a moça só foi diagnosticada com retinose pigmentar aos 17 anos, e, até os 30, tinha acuidade visual relativamente boa. No entanto, nesses últimos quatro anos, houve uma queda drástica, e foi isso o que fez com que a jovem “assumisse”, como ela diz, a identidade de pessoa com deficiência.

Dos 30 anos para cá, ela passou a ler com lupa eletrônica, que aumenta o tamanho e o contraste das letras, e a usar bengala — na cor verde, que é a associada com pessoas de baixa visão, em contraposição à branca, dos cegos. Não foi fácil aceitar que a bengala era necessária, mas o estopim foi quando, em uma noite chuvosa, Fernanda caiu sobre um mendigo deitado na calçada da rua onde ela mora, em Botafogo.

— Eu já não conseguia enxergar direito porque era de noite. Eu nunca enxerguei bem no escuro. Mas notei que, aos 30, passei a ficar de fato cega à noite. Tudo passou a ter muito menos nitidez, e foi um susto, para mim e para o mendigo, quando eu caí sobre ele. E eu mal consegui explicar para ele o que havia acontecido — recorda Fernanda, que, pouco tempo antes, quando estudava literatura em Paris, na França, viveu um episódio parecido. — Eu chutei o baldinho de dinheiro de um pedinte. Fiquei tão embaraçada, sem saber o que fazer.

Ela lembra que foi chocante para os pais e amigos a verem pela primeira vez usando bengala. Ela própria só se acostumou aos poucos, mas o ganho de autonomia fez valer a pena.

— A bengala é como se fosse uma terceira perna ou um terceiro olho. Hoje tenho muito mais segurança para andar na rua — conta.

Fernanda ainda passa, porém, por algumas situações delicadas, especialmente em transportes públicos:

— Quando eu entro num ônibus de bengala e alguém me oferece lugar, eu sempre penso mil vezes antes de pegar o celular e começar a ler. Se eu faço isso, recebo muitos olhares, porque as pessoas acham que estão sendo enganadas. Mas, hoje em dia, eu não me tolho mais e aproveito essa oportunidade para explicar sobre a baixa visão a quem vier me questionar — diz ela.

As causas para a baixa visão são diversas. Além da retinose, podem levar ao problema diabetes, catarata, glaucoma, albinismo, deslocamento de retina, malformações na mácula ou no nervo ótico.

A ideia de escrever “Histórias de baixa visão” começou em um grupo de WhatsApp em abril do ano passado. Dele, fazia parte a jornalista gaúcha Mariana Baierle, que tem baixa visão e, há tempos, já pensava em organizar um livro reunindo relatos autobiográficos sobre o tema. Ela entrou, então, em contato com várias pessoas com a mesma condição em todo o país e estabeleceu a meta de publicar o livro no mesmo ano.

— A sociedade é muito 8 ou 80. A gente passa a vida toda precisando explicar que não é cego, mas precisa de bengala. O livro tem tanto a função de informar as pessoas que enxergam bem, quanto a de ajudar a aceitação de quem tem baixa visão — diz Mariana, de 32 anos. — Na escola, eu era confundida com uma criança tímida e com dificuldade de relacionamento. Eu não corria com as outras crianças no pátio, não conseguia enxergar meus amiguinhos. A bengala foi um divisor de águas para mim. A minha vida social mudou drasticamente para melhor.

ATENÇÃO: a fonte das matérias publicadas neste blog, sempre será indicada. Caso tenha alguma dúvida sobre a matéria ou algo nesse sentido, peço a gentileza em entrar em contato com os responsáveis pela a fonte.

Fonte: site O Globo por Clarissa Pains com foto Custodio Coimbra.

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