Pesquisador defende iniciação esportiva de deficientes ainda na infância

Destaque em eventos internacionais, o esporte paralímpico nacional deverá estar entre os cinco primeiros do quadro de medalhas dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016. Pelo menos, é o objetivo do Plano Brasil Medalhas, do Ministério do Esporte, animado com o bom desempenho dos atletas brasileiros nas competições de que participa.

De acordo com o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), o país começou a ganhar destaque em 2004, em Atenas, quando ficou em 14º lugar, com 33 medalhas, sendo 14 de ouro. Em 2008, em Pequim, foram 47 medalhas, sendo 16 de ouro, e um nono lugar. Já em 2012, em Londres, o esporte adaptado brasileiro melhorou sua performance e conquistou o sétimo lugar, com 43 medalhas, sendo 21 de ouro – ano em que os atletas olímpicos brasileiros ficaram em 22º lugar, e com 17 medalhas, e apenas três de ouro.

A evolução também pode ser acompanhada nos Jogos Parapanamericanos. Em 2007, os jogos foram realizados no Rio de Janeiro e o Brasil conquistou a 1ª colocação e o total de 228 medalhas, sendo 83 de ouro, 68 de prata e 77 de bronze. Já na última edição, realizada ano passado em Guadalajara, os paratletas mantiveram a 1ª posição e conquistaram 197 medalhas na competição, sendo 81 de ouro, 61 de prata e 55 de bronze. O resultado demonstra o empenho e o esforço de quem dá tudo de si e mostra a verdadeira identidade do atleta brasileiro que é movido pela determinação e paixão ao esporte.

Excelência

Para o diretor-técnico do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Edilson Rocha, o Tubiba, o país chegou a um nível de excelência. E vai ainda mais longe com a entrada em funcionamento do Centro Paralímpico de Treinamento, em construção na capital paulista. O projeto prevê espaço adequado para 15 modalidades, estrutura para fisiologia do exercício, área para atendimento médico e avaliações biomecânica e de resultados. “Um boom para assegurar o lugar do Brasil entre as potências paralimpícas”, comemora, ressaltando a oferta, hoje em dia, de locais e patrocínio para os atletas de alto rendimento que participam dos eventos mais importantes.

Os resultados brasileiros, entretanto, poderiam ser muito melhores se o país, em vez de colher os frutos da superação individual dos atletas vencedores, passasse a investir na iniciação esportiva de deficientes ainda na infância. No país da potência paralímpica faltam espaço e oferta de atividades físicas específicas para crianças com deficiência.

Para o educador físico Flávio Anderson Pedrosa de Melo, mestrando do programa de pós-graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), é preciso democratizar o acesso a essas práticas e estabelecer parâmetros para avaliação do desenvolvimento físico, ou pouco valerão iniciativas ainda tímidas como Clube Escolar Paralímpico, do CBP, e as Paralimpíadas Escolares.

Ele é autor de um estudo que avaliou a evolução de quatro crianças cadeirantes, com idades entre 6 e 10 anos, incluídas em aulas com atividades lúdicas combinadas com fundamentos de modalidades esportivas. Para avaliar as três habilidades motoras fundamentais – locomoção, estabilização e manipulação – ele desenvolveu e aplicou um protocolo específico, sensível ao grupo. Em todas houve avanços, o que representa ganhos para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional – aos quais a ampla maioria das crianças com deficiência não tem acesso.

Limites da inclusão

“Como não podem participar das aulas comuns de educação física e a elas não são propostos exercícios adaptados a suas condições, essas crianças acabam de fora e deixam de ter acesso aos benefícios proporcionados”, explica. “Foi muito gratificante ver que elas apresentaram desenvolvimento em todos os aspectos”, diz Flávio, que também atua como técnico da equipe de handebol em cadeira de rodas da UFSCar e, recentemente, assumiu o posto de auxiliar técnico da equipe brasileira, que venceu o último campeonato mundial da modalidade.

Para o educador físico, as aulas de educação física são também a melhor oportunidade para a iniciação das crianças na prática esportiva e posterior treinamento em centros específicos. No entanto, há as barreiras impostas pela formação deficiente dos professores da área, que os incapacita a lidar com as diferentes necessidades impostas pela deficiência, a falta de acessibilidade nos espaços e o próprio preconceito.

A própria carência de atividades físicas adaptadas inspirarou a professora Mey de Abreu van Munster, do Departamento de Educação Física e Motricidade Humana (DEFMH) da UFSCar,  a desenvolver, no âmbito dos programas de extensão, um projeto de atividades Físicas e de lazer adaptadas às pessoas com deficiência (Proafa) no campus da UFSCar. Participam atualmente das aulas oito crianças participam das aulas. O objetivo é despertar o prazer pela descoberta do corpo e de suas possibilidades no universo da cultura corporal do movimento. São oferecidas atividades de natação adaptada e handebol em cadeira de rodas, entre outras.

O Brasil está entre os países com maior número de pessoas com deficiência em todo o mundo. De acordo com o IBGE, são aproximadamente 24,6 milhões de brasileiros com deficiência em todo o país. Isso corresponde a 14,5% da população, o que é bastante expressivo. Desse total, 7% têm limitações motoras. Na cidade de São Paulo, 23% das pessoas são deficientes e pouco mais de 6% possui algum tipo de problema motor.

Apesar dos dados expressivos, essa parcela da população conta com cuidados e melhorias insuficientes. É recente o debate sobre acessibilidade, inclusão e convívio social na tentativa de oferecer melhor qualidade para essas pessoas. Em comparação com os demais países e suas políticas, há muito a caminhar.

Fonte: site Rede Brasil Atual por Cida de Oliveira da RBA – Colaborou Lauany Rosa

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