Peças com 400 de história podem ser tocadas por cegos

Descrição da imagem: deficiente visual passando a mão em uma estátua para conhecer cada detalhe da obra.A exposição “Barroco Itália Brasil – Prata e Ouro”, na Casa Fiat de Cultura, abre as portas à visitação de pessoas cegas. Duas peças da coleção italiana, com cerca de 400 anos de história, arte e devoção, agora podem ser admiradas pelo toque. A mostra vai até 7 de setembro.
Nessa quinta-feira (7), o primeiro grupo com quatro senhoras inaugurou a experiência sensorial. São moradoras do Lar das Cegas, da Associação de Cegos Louis Braille, no bairro Floresta, em BH.
Até então, apenas técnicos da montagem da exposição podiam tocar as peças, sempre com luvas especiais. Essas mesmas luvas foram disponibilizadas para o privilegiado grupo.
“É como se eu tivesse ganhado um tesouro”, emocionou-se a estudante e uma das moradoras do Lar, Eloísa Cristina Ferreira, de 41 anos, portadora de glaucoma congênito desde o nascimento. Natural de Itabira, na Região Central, há dois anos ela está na capital para concluir os estudos.
“Sinto essa emoção em cada oportunidade que eu tenho de visitar e tocar peças de uma exposição. O artista quis passar como se a santa fosse uma pessoa real. Para mim, ele conseguiu”, disse, tateando uma das mãos da imagem de Sant’Anna con la Vergine Bambina, uma das peças do acervo do Museo del Tesoro di San Gennaro, em Nápoles.
Lenha e prata
Aos 90 anos, a moradora mais idosa do Lar é Maria de Jesus Lopes, a “Jesus”. Ela diz que suas mãos foram acostumadas a carregar lenha, antes de vir de uma cidade distante “12 léguas” de Diamantina para BH. Na exposição, a visitante se encantava com os narizes afinados das imagens com aparência italianada. “É uma beleza…”, admirava.
A coordenação da Casa Fiat explica que as peças selecionadas são aquelas com poucas áreas pontiagudas. As centenárias peças do barroco brasileiro não podem ser tocadas por serem feitas em madeira – material muito mais sensível do que a prata. Sem as luvas, a simples umidade das mãos poderia também oxidar as imagens em prata.
A Casa Fiat de Cultura foi inaugurada no início de junho, no antigo Palácio dos Despachos, com a exposição do barroco. Os agendamentos para visitantes cegos devem ser feitos pelo telefone (31) 3289-8910. As luvas são disponibilizadas gratuitamente pelo programa educativo da instituição.
MAIS UMA
A exposição Pinturas Táteis, da artista-educadora Eni D’Carvalho, a “Escultora do Escuro”, é outro convite da arte para o tatear dos cegos. A mostra fica até 29 de agosto no UAI Shopping (rua Saturnino de Brito, 77, Centro, ao lado da rodoviária), de segunda a sábado, das 9h às 17h.
“É uma ideia que se concretizou para mim após a exposição da escultora Camille Claudel, em 1998, no Museu de Arte da Pampulha”, lembra. Nela, deficientes visuais não podiam tocar as esculturas, mas a demanda foi tão grande que levou à abertura da mostra.
Na exposição de Eni D’Carvalho, mesmo as pessoas que enxergam são incentivadas a tapar os olhos por alguns instantes e apreciar as obras por meio dos sentidos sensoriais, como tato, olfato e audição.
Além de Camille Claudel…
No ano passado, a artista Eni D’Carvalho inaugurou o “Instituto Tiflológico” (rua Amélia Calixto Palhares, 88, bairro Caiçara), onde as telas sensoriais são expostas.
Em 2008, “A Arte dos Mapas”, na antiga sede da Casa Fiat de Cultura, no bairro Belvedere, ofereceu réplicas de mapas dos séculos 16 e 19 em braile.
Outras exposições no local seguiram a prática, como nas esculturas da “Rodin: Do Ateliê ao Museu” (2009) e da “De Chirico: O Sentimento da Arquitetura” (2012).
Fonte: site do Jornal Hoje em Dia por Elemara Duarte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*
Website