Língua ou linguagem?

As línguas de sinais são línguas, assim como é o português, inglês ou espanhol. E a linguística e neurolinguística já vem comprovando isso há algum tempo.

Em 1960 se deu o primeiro passo importante para o reconhecimento da Língua de Sinais como uma língua dotada de estrutura gramatical pelo trabalho de William Stokoe, que publicou Sign Language Structure, que Oliver Sacks considera o “primeiro caso de atenção séria e científica dada ao sistema de comunicação visual dos surdos americanos”.

Sacks relata também experiências conduzidas pela professora Úrsula Bellugi, durante a década de 1970, sobre a estrutura das línguas de sinais. Beluggi constatou que a língua de sinais se processa no hemisfério esquerdo do cérebro, utilizando as mesmas vias neurais necessárias ao processamento da fala gramatical, portanto, usuários da língua de sinais, embora possuam uma língua de natureza visual-espacial, apresentam a mesma constituição cerebral que usuários de línguas orais.

Os estudos científicos são recentes mas sabe-se que, como as línguas orais, a língua de sinais é constituída por mecanismos fonológicos, semânticos, sintáticos e morfológicos, tendo como principal característica seu caráter visual-espacial.Ou seja: línguas de sinais são tão complexas quanto línguas orais.

Basta saber o alfabeto?

De jeito nenhum. O alfabeto manual, também conhecido como alfabeto datilológico, é muito utilizado para comunicar nomes próprios ou palavras que ainda não possuem sinal correspondente, mas para uma comunicação efetiva é preciso aprender muitos outros sinais e estruturas gramaticais. Além de estudo teórico, aprender Libras, como qualquer língua, requer também muita prática. Conhecer o alfabeto é apenas o primeiro passo.

Na língua de sinais, cada pessoa tem um sinal correspondente, para que não seja sempre necessário indicar o nome todo pelo alfabeto manual. Quando um surdo se apresenta, é bem comum que diga seu nome e seu sinal. Se você ainda não tem, quando conhecer um surdo ou um grupo de surdos, poderá ser “batizado” com um sinal.

Os significados dos sinais são óbvios?

Não. Pelo menos não todos. Existem tantos sinais icônicos (que fazem alusão a imagem do que representam), quanto arbitrários (que não mantêm semelhança com o que representam).

Mesmo os sinais icônicos não são necessariamente evidentes. Para quem não conhece a língua, entender uma conversa em Libras, geralmente é bastante difícil.

Cada país tem sua língua de sinais

É bastante comum a suposição de que todas as línguas de sinais são iguais ou que se deveria criar uma língua de sinais internacional. Mas assim como cada país tem seu idioma, tem também sua língua de sinais.

No filme Babel, dirigido por Alejandro González Iñarritu, por exemplo, a personagem Chieko, interpretada pela atriz Rinko Kikuchi se comunica pela Língua de Sinais Japonesa. Rinko foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel desempenhado em Babel. Chieko é uma garota surda com dificuldades de se relacionar, deslocada em um mundo muitas vezes inacessível. Apesar das diferenças linguísticas, as barreiras culturais e sociais são recorrentes nos mais variados países.

Embora existam propostas de línguas universais (como o Esperanto e o Gestuno), sabe-se que línguas são manifestações vivas e culturais, modificam-se com o tempo, acompanham a história e os contextos sociais e culturais de um determinado grupo. Sempre haverão apropriações e transformações, assim como diversidade de uso.

Diversidade dentro de um mesmo país

O caráter linguístico da língua de sinais também é reconhecido pela ocorrência de regionalismos, variações locais, sotaques, gírias, da mesma maneira que ocorre com as línguas orais.

Fonte: site Papo de Homem por Ana Cláudia França.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*
Website