Lei de cotas reduz diferenças no trabalho

A história de Bruno Torres Nogueira, 19 anos, poderia ser diferente. Deficiente, com encurtamento nos membros inferiores e superiores, tinha tudo para dar de frente com muitas barreiras na vida social e profissional. Mas a realidade é outra. Alegre e persistente, suas limitações nunca o impediram de realizar uma tarefa sequer. E a Lei de Cotas, que completou 23 anos na quinta, contribuiu ainda mais para a sua felicidade.

Descrição da imagem: foto de uma mulher em frente ao computador procurando vagas de emprego pela internet.

Atualmente, o morador de Mauá é funcionário da sede da Via Varejo, detentora da Casas Bahia, em São Caetano. Atua na área de treinamento e desenvolvimento. Para a supervisora do Padef (Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência), da Secretaria Estadual do Emprego e Relações do Trabalho, Marinalva Cruz, Nogueira é exemplo de que não há diferença entre pessoas com e sem deficiência. “Há muito desconhecimento sobre o assunto, isso sim. Mas a Lei de Cotas exerceu papel muito importante nesses 23 anos e ainda será essencial. O ideal, inclusive, é que no futuro ela não seja mais necessária.” As empresas com mais de 100 funcionários são obrigadas a contratar deficientes para completar entre 2% e 5% do quadro de funcionários.

Limite é uma palavra que não pertence ao vocabulário de Nogueira. Diariamente ele lida com negociações e análises, dialogando diretamente com treinandos e superiores. É um dos integrantes importantes nas reuniões que definem os melhores caminhos de sua seção, já que tem como uma das responsabilidades a administração de dados e gestão de pessoas.

TRAJETÓRIA – Talento é a palavra correta para definir o seu perfil. Uma semana depois de colocar o currículo no site da Via Varejo, foi convocado para entrevista de emprego. A companhia necessitava de funcionário para a área de crediário de uma de suas lojas. Ele ainda enfrentaria três etapas de entrevistas para garantir o seu primeiro emprego de verdade, pois já havia dado aulas particulares para vizinhos. “Eu estava muito nervoso no começo. Isso porque é uma baita empresa. Mas lidei muito bem com a situação porque já tinha passado por pressões muito maiores”, explica Nogueira.

Um desses momentos foi no fim de 2012, quando participou de processo seletivo da Rede Globo. Queria contribuir com reportagens da sua cidade para o telejornal SPTV. Não foi simples a seleção. Ele disputou com mais 7.000 inscritos que tinham o mesmo desejo. E percebeu, naquele período, que suas limitações, realmente, não conseguiam frear suas vontades. Classificou-se entre os seis melhores candidatos. “Infelizmente, eles queriam alguém com mais vivências. Eu ainda estava terminando o Ensino Médio. Mas me trataram muito bem, com igualdade aos outros candidatos. Foi muito gratificante”, recorda Nogueira.

Naquela época, estava pronto para ingressar em uma faculdade de Jornalismo. Caso fosse escolhido pela Globo, esse seria o seu destino. Mas como o destino mudou o curso de sua vida, decidiu por caminho mais abrangente. Prestou vestibular e deu início a faculdade de Administração. Talvez, essa decisão tenha sido um pedacinho do passaporte para ser efetivado na Via Varejo.

Falante, Nogueira se sente querido por onde passa. “No trem, indo para o trabalho, todos já me conhecem e me ajudam sem que eu peça”, conta. O desempenho e a habilidade social e profissional foi tão destacada na empresa que, em questão de meses, foi promovido para a área de treinamento e desenvolvimento. Agora empregado, ele está mais próximo de um de seus sonhos. “Quero pegar tirar minha CNH (Carteira Nacional de Habilitação) e comprar meu carro”.

Enquanto ele não alcança o desejo, se diverte muito saindo com os amigos e, aos risos, revela que bebe socialmente. Mas não deixa a saúde de lado. Faz musculação várias vezes por semana, joga futebol, video-game e brinca com sua situação. “Para tudo dá-se um jeito. Tenho isso como um dos lemas. A única coisa que não consigo fazer é amarrar o cadarço. Então coloco ele para dentro do tênis. Não entendo porque as pessoas ficam chateadas com a vida. Porque isso, porque aquilo. Eu não desisto. E está dando resultado”, garantiu.

O mais importante é que dentro da empresa nunca sentiu preconceito por parte dos colegas de trabalho. Um dos motivos pelo qual mais lhe empolgam o objetivo de um dia, “quem sabe”, chegar à diretoria da companhia.

Companhias desrespeitam regra de décadas

Apesar de prevista pela Lei de Cotas número 8.213, de 24 de julho de 1991, a contratação de deficientes para empresas com mais de 100 funcionários é descumprida pela a maioria das empresas, garante a supervisora do Padef (Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência) da Secretaria Estadual do Emprego e Relações do Trabalho, Marinalva Cruz.

“Esse problema ocorre, principalmente, pelas grandes empresas. Elas, muitas vezes, alegam que os profissionais com deficiência não têm qualificação suficiente para as vagas”, explica Marinalva.

Porém, destaca a especialista, conforme o Censo 2010, o País tinha 10 milhões de moradores com algum tipo de deficiência que tinham concluído entre o Ensino Médio e a pós-graduação, ou seja, 5% do total da população.

Ela lembrou ainda que os deficientes não têm idade máxima para ingressar nas empresas como aprendizes. “A regra geral para iniciantes é entre 14 e 24 anos. Mas para o deficiente, começa aos 14 e não tem limite de idade.”

Fonte: site do Diário do Grande ABC por Pedro Souza.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*
Website