O mercado é de todos

Descrição da imagem: em uma placa de ferro, pontos do Braille para deficientes visuais, acima um papel escrito: Braille Graffiti.Os avanços tecnológicos dos últimos anos fizeram com que os botões se tornassem cada vez menos utilizados para dar vez ao touch screen. Grandes companhias buscam criar smartphones, tablets e aplicativos cada vez mais práticos e tudo isso por um baixo custo, principal atrativo em um mercado tão disputado.

Mas há um outro mercado a ser observado: aquele que busca, com todas as novas tecnologias, proporcionar inclusão e novas opções de lazer para quem é cego, surdo, mudo ou cadeirante. “Criamos certas barreiras por falta de acessibilidade e nossos gostos e vontades são baseados pela falta de recursos”, conta Jucilene Braga, psicóloga e deficiente visual total.

A empresa britânica OwnFone buscou avanço nos aparelhos celulares. Em maio, anunciou o primeiro totalmente em braile, resultado da impressão 3D. A novidade ganhou destaque e deve chegar ao consumidor final ainda em 2014 por 60 libras esterlinas, cerca de R$ 225. Já no ramo audiovisual, a canadense Zagga, rede similar ao Netflix, busca no financiamento coletivo recursos para levar audiodescrição a filmes e programas de TV online.

Jucilene é uma dentre os milhares de usuários da tecnologia que o iPhone proporcionou. Considerado por ela um divisor de águas, o aparelho facilita muito o seu cotidiano. “Eu sempre fui muito plugada, mas no começo tive dificuldades por conta do touch screen”, lembra.

O aparelho da Apple já vem de fábrica com a opção voice over, que lê e mapeia as funções por ícones, em um exemplo de que tecnologia e acessibilidade estão entrelaçadas. Além disso, aplicativos surgem diariamente e facilitam muitas ações diárias. O Camfind, por exemplo, identifica e dá informações em áudio sobre qualquer objeto fotografado e foi muito útil para Jucilene em viagens para distinguir latas de refrigerante e cerveja.

Tal como milhões de consumidores no Brasil, a psicóloga possui sim uma deficiência física, mas é uma consumidora em potencial, principalmente de cultura, tecnologia e moda. “Eu adoro ir ao shopping, como toda mulher, e sou chata. Só saio da loja quando sinto que encontrei algo que realmente gosto”, afirma.

Da moda ao lazer

E o mercado da moda está antenado nesse novo perfil de consumidores. A Casa de Criadores levou acessibilidade para seu evento, que aconteceu em São Paulo entre 4 e 6 de junho. A ideia era que novos estilistas pensassem em dois looks com peças para deficientes visuais. Igor Dadona, estilista de moda masculina, foi um dos destaques. Trabalhando com diferentes texturas, identificações em relevo, mix de tecidos e assimetria, ele afirma que suas roupas são inclusivas, mas que pensou em seus looks como para qualquer outra coleção.“As mudanças foram apenas para tornar as peças mais fáceis de vestir, já que a correria do dia-a-dia demanda muito tempo de todos nós”, diz.

Para ele, hoje existe um olhar mais afiado para a moda, por isso, as peças trazem algo mais voltado à praticidade do que específico para deficientes. Na passarela, as roupas ganharam movimento com dois modelos deficientes visuais, que aprovaram o estilo. Dadona garante que a experiência foi emocionante e destaca que, para deficientes visuais, “o conceito de vestir é diferente, não é só colocar uma roupa e achar que está boa. O tato interfere muito”.

Copag, famosa por jogos de cartas, lançou o primeiro baralho em braile, já disponível em sua loja virtual. Dado o primeiro passo, a iniciativa já mobilizou a Copag, que tem estudado metodologias para oferecer seus produtos a pessoas com outras deficiências.

O recém-lançado projeto 139 Braile também demanda outra ação: ensinar os cegos a jogarem. Por falta de acesso, muitas pessoas nunca tiveram a oportunidade. A companhia conta que também está trabalhando no desenvolvendo de um torneio de cartas entre deficientes.

Valor agregado

Jairo Marques, jornalista e autor do blog “Assim como você“, tem muita experiência com temas relacionados a cultura, lazer, inclusão e acessibilidade. Ele é cadeirante desde criança e acredita que o mercado voltado aos deficientes tem sido promissor nos últimos anos. “Tem mudado de forma veloz, felizmente. Hoje há opções, mesmo que ainda em número bem insatisfatório”, afirma.

O jornalista afirma que hoje é possível criar um bom roteiro turístico em grandes cidades, passear em Fernando de Noronha, frequentar bares com banheiros acessíveis e com cardápios em braile. Jucilene reforça o argumento: “Viajei para o Nordeste com o meu marido, que também é cego, e foi incrível. Fizemos tudo sozinhos, desde a recepção até encontrar a ilha”.

Novamente a tecnologia auxilia nesse processo, com sites e aplicativos das empresas, que informam sobre acessibilidade, com selos do tipo “Amigo da diversidade”. Marques é otimista e acredita que a pressão social e o entendimento das demandas tendem a ampliar esse mercado. “Ainda há resistência tola, como por exemplo, gente que acha que audiodescrição pode distorcer o conteúdo de uma peça. Dar oportunidade a todos é sempre melhor do que fechar as portas”.

Tanto o jornalista quanto a psicóloga destacam a importância de mais produtos e serviços de lazer e cultura aos deficientes como possibilidade de expansão de mercado. “Em vez de excluir consumidores, você estará agregando. As pessoas com deficiência estão no mercado de trabalho e querem consumir, querem ter acesso à cultura, querem desfrutar do lazer”, destaca Marques.

Para ele, é preciso buscar mais informações e refutar questões que envolvem a causa da acessibilidade. E lembra que o consumidor é cativo e fiel a quem se preocupa com a diversidade: “Sair na frente nesse processo é lucro certo e valor agregado para marcas”.

Fonte: site Empreendedores Criativos.

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