Terapia musical proporciona qualidade de vida a idosos com demência

Todas as sextas-feiras, o parque da quadra 403 Sul serve de palco para quem deseja reviver antigos sucessos da música brasileira. Um círculo é formado e, enquanto crianças se divertem nos brinquedos, músicos dedilham o violão com melodias clássicas que vão de Tom Jobim a Luiz Gonzaga.

Na plateia, pessoas cheias de história para contar, embora a memória as traia e deixe as lembranças escondidas em cômodos do esquecimento. O semblante da maioria delas se transforma. Ao mesmo tempo que sabem o que está sendo tocado, parecem não alcançar as palavras. Demonstram uma saudade sem imagem, mas repleta de sentido.

A proposta paliativa da musicoterapia é tema de diversas pesquisas e trabalhos acadêmicos, mas é observando a experiência que os terapeutas ocupacionais do Espaço Convivência se convencem de seu poder.

“A música tem um significado pessoal e é um forte estímulo para envolver as respostas nas pessoas, mesmo nos estágios tardios da demência”, explica Giovanna Macedo, terapeuta ocupacional do Espaço Convivência. “Mesmo que elas não saibam necessariamente lhe dizer qual é a música, são capazes de se emocionar e fazer associações.”

Em um estudo de 1986, apenas a música foi capaz de provocar resposta física em pacientes no estágio final da doença de Alzheimer. Diante da canção favorita, alteravam-se a medição da frequência cardíaca, a respiração, o piscar dos olhos e os movimentos da boca.

Uma pesquisa posterior sobre o uso da música em cuidados paliativos descobriu que, enquanto a combinação de linguagem é processada apenas por uma parte cognitiva, a música é compreendida por diversas partes do cérebro. Isso aumenta a chance de ativar caminhos neurológicos que a linguagem sozinha não consegue alcançar.

No entanto, para que ocorram tais associações, o musicoterapeuta Rafael Miranda ressalta a importância de estudar o perfil dos pacientes. Descobrir quais músicas faziam sucesso na época que eram jovens e avaliar a região em que eles moravam são alguns dos fatores levados em consideração.

“Como não existe cura para a demência, pensamos sempre na qualidade de vida dos pacientes e a música tem esse poder de resgate, ao mesmo tempo em que ajuda a trabalhar a parte física”, comenta Rafael.

Quando os terapeutas viram músicos, quem ainda tem funções motoras consegue se levantar e dançar com os cuidadores. Mesmo aqueles com capacidade reduzida para se mover participam da atividade munidos de pequenos pandeiros ou claves de madeira. A intenção é não deixar ninguém parado e praticar a socialização — uns com os outros e também com a comunidade.

Valéria Serpa, de 86 anos, é uma das que não ficam paradas. A célebre canção Trem das Onze, de Adoniran Barbosa e popularizada pelo grupo Demônios da Garoa, é sua favorita, especialmente porque a faz lembrar de São Paulo, sua cidade natal.

A música tocada por Rafael acabou tornando-se um alento para ela, que foi morar no Espaço Convivência depois de perder a filha e o marido. A decisão foi tomada pelo genro e a neta, que sentiram a necessidade de fazer com que Valéria convivesse com outras pessoas e, pelo sorriso no rosto dela, a iniciativa de socialização deu certo.

“Quando eles cantam se divertem com os outros companheiros. Por isso, a música acaba por encorajar a ligação com os outros, o que, por sua vez, pode ajudar a aliviar os sentimentos de solidão e depressão”, comenta Giovanna.

É o caso de Vera Rivera, de 88 anos. As melodias lentas de Silvio Caldas a fazem lembrar constantemente do marido, José Rivera, que faleceu há anos. “Nunca houve marido como o meu. Que me desculpem as mulheres, mas eu tive o melhor marido que alguém pode querer”, relembrou ela, que gosta da nostalgia que a aula lhe traz.

Os encontros são feitos propositalmente no final da tarde. Além de todos os benefícios — cognitivos, sensoriais, físicos, sociais e comportamentais —, a proposta da música também funciona como estratégia de relaxamento para que os idosos consigam dormir melhor.

Quem é muito animado, como Oswaldo Mascarenhas, 100 anos, fica chateado quando a música para de tocar. Centenário que esbanja lucidez, ele elege as músicas de festa junina como suas favoritas. Transporta-se de volta aos tempos de juventude principalmente ao ouvir o clássico do sertão nordestino Mulher Rendeira — que ele sabe de cor.

Embora a musicoterapia possua evidências científicas inconclusivas sobre todos os seus benefícios, os profissionais do centro geriátrico observam que o uso de intervenções musicais ou rítmicas tem sido verdadeiramente promissor.

“Muitas vezes eles podem esquecer a letra, mas sabem a melodia e daí entra o fator da emoção também. Muitos choram e se sensibilizam, outros ficam felizes e sorriem. Isso para nós já é uma comprovação do quanto podemos manter e melhorar a qualidade de vida de uma pessoa”, comenta a terapeuta.

ATENÇÃO: a fonte das matérias publicadas neste blog, sempre será indicada. Caso tenha alguma dúvida sobre a matéria ou algo nesse sentido, peço a gentileza em entrar em contato com os responsáveis pela a fonte.

Fonte: site Metropoles por Edson Caldeira com foto de Felipe Menezes.

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