Programa da USP traz terceira idade para sala de aula

Aos 62 anos, o engenheiro de produção Nilson Armando Moreira Martins voltou a ser aluno. Ele agora tem as noites de segunda-feira preenchidas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde se matriculou para as aulas de Jornalismo Esportivo. “Voltei a estudar porque queria evoluir nos assuntos de que sempre gostei e dividir a minha experiência de vida”, diz ele, que no passado atuou como assessor de imprensa de clubes de futebol.

Martins integra o time de estudantes do programa Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati) da USP. Idealizado pela professora Ecléa Bosi, do Instituto de Psicologia, o projeto permite que alunos com mais de 60 anos estudem com os jovens graduandos da universidade. Desde sua criação, há 20 anos, mais de 118 mil idosos puderam cursar diferentes disciplinas oferecidas por professores que se interessaram em recebê-los.

O resgate da memória biográfica no processo de aprendizado é um dos alicerces da Uati, segundo Ecléa, coordenadora acadêmica do programa desde a sua origem. “Na época, eu pesquisava reminiscências do tempo e do espaço em São Paulo para um livro chamado Memória e Sociedade”, ela explica.

Para preservar tais narrativas, a acadêmica e outros pesquisadores solicitaram, em 1992, a abertura da universidade aos cidadãos da terceira idade. No ano seguinte, acolhida a proposta, procuraram os professores para saber se aceitariam veteranos em suas aulas. A reação, diz Ecléa, foi surpreendente: “Recebemos centenas de respostas”.

A estrutura da Uati é simples, flexível e gratuita – também para aUSP, que não gasta nada com o projeto. A cada semestre, os docentes avisam se disponibilizam vagas para suas matérias. Grande parte delas requer Ensino Médio completo e eles podem fazer entrevistas para escolher os mais aptos, caso sobrem candidatos.

Essa informalidade é tida como razão do forte crescimento do programa. Em 1994, seu primeiro ano, foram 847 participantes. O contingente atingiu seu pico em 2010, com 10.577 alunos. Em 2012 foram 8.569 matriculados na Uati, o equivalente a 7,5% dos 113.316 estudantes de graduação no período.

O projeto, que, segundo a professora, “veio humanizar a fisionomia da universidade”, hoje está presente nas sete cidades com campi da USP – além da capital paulista, Bauru, Piracicaba, Pirassununga, Lorena, Ribeirão Preto e São Carlos. A ideia também se espalhou para outros centros de São Paulo, como a Universidade Estadual Paulista (Unesp), e até de outros estados, como as federais de Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco.

Na USP, foram ofertadas neste ano 802 matérias de diversas faculdades. As opções vão de História da Arte no Brasil a Cálculo Numérico com Aplicações em Física, passando por Cuidados Paliativos, Finitude e Morte. Essa não especialização é o ideal do programa, em oposição, afirma Ecléa, à filosofia monovocacional do mercado de trabalho. “Nossos velhos alunos querem estudar Botânica e Língua Chinesa, Cinema e Música, Psicologia e Astronomia. Por que limitá-los?”, pergunta.

Antes de propor o projeto, Ecléa pesquisou ações similares em universidades na Europa. “Lá os alunos ficavam isolados, cursando matérias exclusivas”, ressalva. Na USP, os idosos participam de todas as atividades regulares.

Com isso, algo de novo acontece nas salas de aula. “Nossos alunos estão vendo entrar devagarinho alguns colegas de cabeça branca. São os velhos trabalhadores de São Paulo, que, embora tardiamente, reclamam seu direito à cultura”, conta a acadêmica.

Os amadurecidos educandos frequentam as aulas, participam de ­seminários e pesquisas e são avaliados como os demais alunos. São iguais a ponto de poderem ser reprovados, o que até agora, diz Ecléa, nunca aconteceu: “Eles estudam muito, viu?” A fre
quência e as notas rendem um certificado final de conclusão para cada matéria.

Entre os professores há um consenso: essa inserção de memória biográfica beneficia também os jovens. “É como tirar a história de retratos emoldurados em preto e branco e levá-la à sala de aula”, analisa Fabiana Jardim, docente de Sociologia da Educação na USP. Ela começou a receber alunos do programa neste ano e hoje leciona para duas idosas. Em sua visão, “o relato de pessoas com relações afetivas com o passado dá cor aos estudos”.

Ivan Vilela, 51 anos, professor, músico e compositor, exalta a ação da Uati na valorização do idoso “em um mundo que reduz seu valor, porque não mais produz”. Ele também identifica um ganho coletivo em suas aulas de Música Popular Brasileira: “Os jovens aprendem mais pela experiência. O convívio com idosos é fundamental para a saúde dos próprios cursos”.

Neste semestre, ele disponibilizou cinco vagas pela primeira vez ao programa e todas foram preenchidas. Vilela diz que sua relação com os veteranos é rigorosamente igual à com os demais graduandos. E como se integram os que já passaram da terceira idade com os mais jovens? Bem, obrigado: “Ontem, precisei dar uma bronca num senhor que não parava de conversar com um garoto”, ele conta, aos risos.

Além de combater o isolamento, outro pilar da Universidade Aberta à Terceira Idade é a crença de que estamos em aprendizado do nascimento à morte, sem limites a etapas específicas. “O segredo da longevidade é estudar”, afirma Luciano Maluly, professor de Jornalismo Esportivo na ECA.

Foi assim com a bibliotecária Tatiana Douchkin, de 69 anos. Desde 2005, ela cursou mais de 20 disciplinas por meio do programa até que, em 2009, resolveu tentar vaga em uma especialização. Conseguiu. Formou-se no ano passado e, no trabalho de conclusão, estudou a trajetória da Uati.

“Sou tratada como colega pela meninada. Eles me convidam para ir aqui e ali e às vezes preciso lembrá-los de que não tenho mais 19 anos”, diverte-se. Ela diz que o contato com jovens a rejuvenesceu e não dá mostras de querer parar: “Enquanto Deus me der forças, vou continuar estudando”.

Ecléa destaca, afinal, o papel dos estudos na ressignificação política da aposentadoria: “Para os idosos, acabou o tempo do trabalho alienado e repetitivo e chegou o do trabalho criativo. É a hora do engajamento em partidos e movimentos ecológicos”. Para comprovar, ela reporta à presença de veteranos nas recentes manifestações populares no País: “Por que condenar os avós ao trabalho doméstico, se eles podem florescer na vida pública?” A resposta, agora, está mais próxima.

*Publicado originalmente em Carta na Escola.

Fonte: site Carta Educação por Rafael Gregorio.

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