Para além do que se pode ver

Você nunca pensa em artes visuais para cegos”. A frase, capaz de provocar diversas reflexões, é do deficiente visual e jornalista de O TEMPO, Alison Pitangueira, 31. A afirmativa foi dita por ele pouco antes entrar no carro em direção à Casa Fiat de Cultura, que inaugurou nessa quarta-feira (17) a exposição de peças multissensoriais do painel “Civilização Mineira”, de Candido Portinari, em exposição no hall de entrada do local desde 2013.

A obra apresenta a mudança da capital de Ouro Preto para Belo Horizonte, em 1897, e é uma das grandes representantes do Modernismo no Brasil.

Num misto de ansiedade e expectativa, o repórter, que nunca enxergou as cores de um quadro, duvidava se seria realmente possível ter acesso a uma experiência que o levasse à obra de Portinari. “Ah, eu imagino que a gente vá tocar em algumas coisas”, disse Pitangueira, durante o trajeto.

Entre desconfiança e esperança, ele embarcou em uma experiência que, ao fim, descreveu como “inimaginável”. Isso porque ele pôde, ou pelo menos tentou, “entrar na cabeça de Portinari” por meio de duas peças sensoriais que descreviam o quadro para pessoas cegas. No local, ainda há uma terceira peça, que ressalta as cores da tela, destinadas a pessoas com baixa visão.

Todas as três peças têm a mesma proporção em relação à obra original, com a medida de 2,34 x 8,14 m, mas em escala 180 vezes menor.

A primeira peça que Pitangueira teve acesso foi a que destaca a estrutura de composição da paisagem. Feita com placas de MDF, a peça é composta por sete camadas, com objetivo de levar o visitante a perceber as noções de profundidade da obra de Portinari. “Com essa peça, pude imaginar a obra pronta, sentir cada detalhe. Dá para esmiuçar bem a obra. Senti detalhes que nunca pensei que existissem”, conta.

Depois, o repórter conferiu a peça que reproduz as linhas essenciais do desenho da obra. Dividida em 12 partes – exatamente como o painel de Portinari –, o objetivo da peça é aproximar os deficientes visuais da formatação do painel de Portinari, além de dar autonomia aos cegos, uma vez que a peça funciona como um quebra-cabeças. “No começo, fiquei perdido. Mas depois comecei a viajar na peça e imaginar muitas coisas”, disse Pitangueira.

Audiodescrição. Além das peças, os deficientes visuais também têm acesso a audiodescrição feita por funcionários da Casa Fiat. Nessa quarta-feira, quem ficou responsável pela tarefa foi a coordenadora do programa educativo da casa, Clarita Gonçalves. Primeiro, ela descreveu em detalhes a obra de Portinari. Em seguida, a coordenadora se dirigia a cada um dos deficientes para descrever as peças que tocavam. “Sem a audiodescrição, eu não entenderia nada. Um exemplo é a torre da igreja. Eu toquei em um buraquinho na peça, mas nunca imaginaria o que fosse se não tivesse a explicação”, diz.

Semana de Museus. As peças fazem parte da comemoração pela Semana de Museus, que chega ao fim neste domingo, e que traz o tema “Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus”. As peças também farão parte da exposição permanente a partir de agora.

“Depois de algumas exposições adaptadas para cegos, percebemos que estávamos retratando-as a partir de quem enxerga”, diz Clarita ao detalhar a ideia de pensar nas peças. “O Alisson não passou pelo milagre de ver aqui, mas ele pode ter chegado mais perto da obra”, diz o presidente da Casa Fiat de Cultura, José Eduardo de Lima.

ENXERGAR COM A ALMA

Leia o relato de Pitangueira

“Fui convidado para participar de uma matéria que trata de um dos quadros de Cândido Portinari, um dos maiores pintores brasileiros. Logo pensei: “Meu Deus! Um cego tendo que acompanhar algo tão visual! Não vai dar certo!”

Enfim, aceita o desafio e fomos para a pauta. Na Casa Fiat de Cultura, na Praça da Liberdade, estava a obra “Civilização Mineira”, que retrata a mudança da capital mineira de Ouro Preto para Belo Horizonte, ocorrida em 1897. Além do painel convencional, havia um exclusivo, adaptado para nós, deficientes visuais.

Em um dos quadros, havia a pintura das cidades de Ouro Preto e Belo Horizonte, bem como suas características daquela época, de fins do século XIX. Para que possamos entendê-lo por completo, este foi dividido em sete partes, sendo a primeira bem genérica e a última, com a visão mais detalhada e completa do que Portinari queria nos passar. Segundo a coordenadora que me explicou o processo, Clarita Gonçalves, o objetivo era exatamente este: mostrar como o pintor esboça, planeja e, por fim, desenha sua arte!

No começo, me deparei com o recorte de um dos painéis, manuseei por alguns instantes, mas não surgiu nada demais. Quando a coordenadora do Projeto Educação, que desenvolveu a ideia inclusiva, fez sua audiodescrição, os horizontes se abriram.

Em um exemplo, havia pequenos buracos, que representam pássaros na paisagem. Em outro momento, pequenos traços indicavam fios de luz, que saíam dos postes retratados na obra.

Como os diretores e coordenadores falaram, que o intuito era nos mostrar como o pintor constrói sua arte, comecei a perceber, em cada curvas e traços, a complexidade de uma obra muito bem trabalhada e planejada.

No segundo quadro, tinha um quebra-cabeças com várias peças minuciosamente encaixadas, para que, após as explicações, o visitante pudesse retirá-las e colocá-las, exatamente como estavam anteriormente. Pequenos orifícios eram utilizados, na peça e no quadro, para a nossa orientação. Mais uma vez, evidenciou-se cada pequeno passo dado, pelo pintor, até se chegar ao todo da obra, com sua beleza e peculiaridade!

Enfim, após chegar totalmente perdido e meio sem saber o que fazia ali, aprendi que, nós, deficientes visuais, podemos enxergar… mas enxergar com a alma, tal como penso que os artistas, de modo geral, tentam repassar para cada um de nós!” (Alisson Pitangueira)

Agenda

O quê. Exposição de peças multissensoriais de Candido Portinari
Onde. Casa Fiat de Cultura (praça da Liberdade, 10, Funcionários)
Quando. De 3ª a 6ª, das 10h às 21h; sáb., dom. e feriados, das 10h às 18h.
Quanto. Gratuito

ATENÇÃO: a fonte das matérias publicadas neste blog, sempre será indicada. Caso tenha alguma dúvida sobre a matéria ou algo nesse sentido, peço a gentileza em entrar em contato com os responsáveis pela a fonte.

Fonte: site do jornal O Tempo por Laura Maria

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