Ouça com outros olhos

Descrição da imagem: foto do baterista Arthur Thiago Cunha, que mesmo com apenas 5% da visão, estuda música na Casa da Cultura.O baterista aí da foto é Arthur Thiago Cunha, que mesmo com apenas 5% da visão, estuda música na Casa da Cultura. Uma sorte que nem todos os deficientes visuais do País têm. Entre as razões, a incapacidade das escolas de música de lidar adequadamente com esse público. Ciente disso, Thiago organizou o Curso de Capacitação em Musicografia Braile, que vai desta quinta-feira (29) até sábado (31) na Associação Joinvilense para a Integração do Deficiente Visual (Ajidevi). À frente dele está o potiguar Adriano Chaves Giesteira, que vem à cidade habilitar profissionais de música, estudantes com deficiência visual e pessoas interessadas no assunto que tenham conhecimento em teoria musical. As inscrições para o curso, que é gratuito, devem ser feitas pelo thg.arthurcunha@gmail.com ou (47) 9671-1608. A coluna aproveitou o momento para conversar com Dolores Tomé, professora e pesquisadora da Escola de Música de Brasília. Há alguns anos, ela desenvolveu um sistema chamado Musibraille, primeiro programa de computador em português capaz de transcrever partituras musicais para o método braile, permitindo sua leitura e manuseio por instrumentistas cegos. O software pode ser baixado gratuitamente no site www.musibraille.com.br.

Você começou a ensinar música para cegos por causa de seu pai? 
Dolores Tomé – Não, apenas as circunstâncias me levaram a isso. A partir de ter aprendido braile desde pequena, me senti no dever de abrir caminhos para os cegos da Escola de Música de Brasília, pois eles não aceitam cegos. Como meu pai era professor na instituição, não entendia tal recusa.

Foi por meio dele que percebeu as dificuldades dos cegos em relação ao aprendizado da música? 
Dolores – Jamais percebi as dificuldades dos cegos em relação ao aprendizado da música, muito pelo contrário. Por meio do meu pai percebi a necessidade de se aprender musicografia braile, já que ele  deixou aproximadamente 800 músicas escritas nesse genial código, graças a Louis Braille, pianista e grande compositor.

Qual o ponto mais crítico desse cenário de dificuldade? 
Dolores – Os professores que não aceitam lidar com o diferente perdem um saber e impedem o ingresso de pessoas talentosíssimas apenas por serem cegas. Como diz o filósofo baiano Milton Santos, “a força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”.

De forma resumida, como o programa criado por você ajuda quem não enxerga? 
Dolores – Acho que ajuda muito mais quem enxerga.

Esse software já está bem disseminado pelo país?
Dolores – Entre no nosso site, www.musibraille.com.br, e veja quantos eventos e cursos de capacitação demos deste 2009.

E quanto ao próprio ensino de música para cegos, houve um crescimento? 
Dolores – Houve e não houve. Com o fim das escolas especializadas e o começo da inclusão, as escolas foram obrigadas a aceitar pessoas cegas.

O ensino é qualificado?
Dolores – Aí vem o problema da musicografia braile: por falta de qualificação, querem dar aulas “de ouvido”, não qualificando a pessoa cega com as ferramentas imprescindíveis a ela.

Além da inserção social, como o aprendizado musical ajuda o cego? 
Dolores – Dando direito de igualdade a todas as pessoas que querem se profissionalizar de aprender música como deve ser feito.

Pela sua experiência, o cego possui alguma condição especial para ler ou executar música? 
Dolores – Absolutamente nenhuma. Ele precisa das ferramentas e direitos iguais. Para ele, é muito árduo decorar as músicas sem possuir partituras para ler, interpretar e produzir.

Fonte: Blog Orelhada por Rubens Herbst.

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