Negatividade e estresse favorecem o Alzheimer

Descrição da imagem: ilustração de um crânio em formato de quebra cabeça faltando uma peça, simbolizando a perca de memória.Em 1906, o psiquiatra alemão Alois Alzheimer recebeu o caso de um homem com severa mudança de comportamento e grave perda de memória. Tratava-se de Auguste D., a primeira pessoa a ser diagnosticada com a doença batizada com o nome do médico que a descreveu. De lá para cá, a ciência avançou muito no conhecimento sobre a enfermidade, percebendo que ela é resultado da combinação de fatores genéticos, ambientais e de personalidade. No entanto, a compreensão de como esse último aspecto pode colaborar com o surgimento do mal ainda é muito limitada. 

Um estudo publicado na revista especializada Neurology busca aumentar esse entendimento ao indicar que o risco de Alzheimer é maior em mulheres com um alto grau de neuroticismo – uma das dimensões da personalidade, relacionada a sentimentos negativos como raiva, culpa, ansiedade, depressão ou inveja. O trabalho, liderado por Lena Johansson, pesquisadora da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, chegou a essa conclusão após acompanhar o envelhecimento de 800 mulheres ao longo de 38 anos.

Quando a pesquisa foi iniciada, as participantes tinham 46 anos, em média. Ao longo das quase quatro décadas de monitoramento, 153 desenvolveram algum tipo de demência, sendo que 104 delas foram diagnosticadas com a doença de Alzheimer. Ao rever os dados colhidos ao longo do trabalho, incluindo entrevistas que buscavam traçar o perfil das voluntárias, Johansson percebeu uma correlação entre a personalidade e o desenvolvimentoo da enfermidade. “Percebemos que um maior grau de neurose na meia idade estava associado à maior incidência de mal de Alzheimer no fim da vida”, conta a autora ao Estado de Minas. 

A especialista, contudo, ressalta que outros fatores merecem ser levados em conta, especialmente o estresse. Quanto mais tempo essas mulheres eram submetidas a pressões cotidianas, maiores eram as chances de desenvolverem problemas cognitivos na velhice. Da mesma forma, o risco diminuía quando elas conseguiam administrar melhor os problemas. “Essa associação diminui quando essas mulheres conseguem ajustar os períodos de preocupação”, resume Johansson. “É possível que o neuroticismo torne o indivíduo mais vulnerável ao estresse e à angústia, o que conduz a um desenvolvimento posterior de demência”, completa. 

Mortalidade A pesquisa não é a primeira a associar aspectos mentais e emocionais a doenças, lembra Daniel Maurício de Oliveira Rodrigues, professor de naturologia da Universidade do Sul de Santa Catarina. “O hormônio do estresse, chamado cortisol, por exemplo, está relacionado a problemas cardiovasculares, digestivos, metabólicos, de reprodução e imunológicos. O estresse também está envolvido com problemas ligados à memória, à cognição, ao sono e ao envelhecimento”, diz o especialista, também editor-chefe da revista Cadernos de Naturologia e Terapias Complementares.

Além disso, a relação do excesso de neurose com maior risco de mortalidade já foi bastante documentada. Contudo, o que está por trás dessa relação? Algumas teorias sustentam que pessoas que olham mais para o lado sombrio da vida tendem a negligenciar a saúde, abusando mais, por exemplo, de tabaco, álcool e outras drogas — muitas vezes, como uma forma de reduzir a ansiedade. 

Um estudo da Purdue University, nos Estados Unidos, por exemplo, verificou essa hipótese observando os hábitos de 1.788 pessoas ao longo de 30 anos. Os autores notaram que os mais neuróticos realmente adotavam comportamentos prejudiciais com frequência maior. Os autores constaram que cerca de 40% das mortes precoces desse grupo decorreram do cigarro. 

“É bem documentado que indivíduos com baixo neuroticismo costumam ter um estilo de vida mais saudável, com melhores perfis metabólicos, cardiovasculares e inflamatórios”, reforça Lena Johansson. A pesquisadora sugere que pessoas neuróticas e muito estressadas sofrem mudanças estruturais no hipocampo, uma região envolvida com a memória. Pode ser, ela especula, que esses fatores aumentem os níveis de hormônios relacionados às doenças neurodegenerativas, como o cortisol. Ela sublinha que a forma com que a pessoa lida com o estresse, portanto, é fundamental. 

LONGA LISTA Segundo Daniel Rodrigues, as consequências dependem dos esforços de adaptação do indivíduo aos eventos problemáticos. “Se a reação ao estímulo estressor for muito intensa ou se o agente estressor for muito potente e prolongado, poderão surgir doenças ou haver uma maior predisposição ao desenvolvimento delas. Além disso, essas situações podem debilitar o indivíduo, deixando-o mais suscetível a enfermidades”, afirma.

A lista de doenças causadas por estresse é interminável. Podem aparecer problemas de apetite, de estômago (gastrites e úlceras), alguns tipos de câncer, impotência sexual, queda de cabelo, envelhecimento precoce, hipertensão arterial e diabetes, entre outras. Vale mencionar que, entre os idosos, a demência clinicamente diagnosticada é multifatorial. “Os infartos silenciosos ou lesões na substância branca cerebral (que regula os sinais cerebrais) podem ser uma razão para a associação entre o neuroticismo e a doença de Alzheimer. Estudos anteriores encontraram relação desse traço com as enfermidades cardiovasculares”, pontua Johansson.

A boa notícia é que existem artifícios para enfrentar o estresse. Rodrigues ressalta que a preocupação moderada é natural. Mas, para ser benéfica, deve ser restrita a períodos curtos. Ele cita que técnicas de respiração e relaxamento, de meditação, práticas corporais que trabalham a mente, como ioga, acupuntura e auriculoterapia, podem ser um bom escape. As alternativas naturais incluem os florais de Bach. “Conduzimos um estudo clínico avaliando os efeitos dos florais no alívio do estresse de policiais e obtivemos efeitos positivos”, diz Rodrigues, frisando que são necessários mais estudos para confirmar a eficácia do tratamento. 

Cinco dimensões

Muitos pesquisadores entendem que a personalidade é formada por cinco dimensões: capacidade de abertura a novas experiências, consciência, extroversão, afabilidade e neuroticismo. Esses fatores aparecem combinados em graus variados em cada pessoa. O psicólogo Robert McCrae, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, é um dos que defendem a universalidade dessas características, baseado em análises que realizou com estudantes de 51 culturas diferentes. 

Personagem da notícia

Norberto Anízio Ferreira Frota, 
vice-coordenador do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia 

Cada um tem reação diferente

“O estudo acompanhou um grande número de mulheres durante muito tempo, o que é a parte positiva do trabalho. Entretanto, a relação encontrada (se a pessoa é mais introspectiva e crítica, ela tem mais chance de desenvolver as doenças) foi muito fraca, porque o estresse provoca mudanças hormonais e no cérebro que são fatores de risco mais à frente na vida da pessoa. Quando se corrige isso, o risco diminui. Mesmo assim, não tem como dizer que o estresse é o grande responsável, porque cada pessoa reage de uma forma diferente a ele. Uma coisa que o trabalho aponta é que pessoas sociáveis e positivas, que têm mais contato social, têm menos chance de desenvolver um quadro desses. O contato estimula o cérebro e é, sem dúvida, importante para evitar o problema. Mas, além da personalidade, outros fatores, como pressão alta, diabetes e tabagismo, influenciam muito.”

Fonte: site do Jornal Estado de Minas por Isabela de Oliveira e foto do site O Estado.

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