Mostra com 21 fotos feitas por estudante de jornalismo cego comprovam superação

Marciano Archanjo de Melo é apenas um estudante de jornalismo. Porém, ele não consegue “ver” o mundo e os fatos por meio de todos os sentidos do corpo. O sentido da visão ele não tem desde o nascimento. Mesmo assim, sem valer nota ou prova, o aluno de 33 anos inspirou-se em uma palestra ouvida na faculdade e decidiu fotografar. Um cego fotografando? Isso mesmo! O resultado de tamanho empenho pode ser visto de hoje até 13 de junho na exposição “A Percepção do Mundo Sem o Campo Visual”, na Universidade Fumec, onde Marciano cursa o 8º período da graduação.

Descrição da imagem: deficiente visual com uma câmera fotográfica registrando alguns momentos.

Foto: Ricardo Bastos

O local escolhido para a experiência foi o Mercado Distrital do Cruzeiro, vizinho da universidade. Ali, Marciano foi a campo, depois de dois dias de treinamento com o técnico do laboratório de fotografia da escola, Sérgio Lucarelli.

Frutas, flores, pessoas, texturas, cores e toda a divertida confusão típica de um mercado, tudo foi descrito pelo técnico aos ouvidos perspicazes do fotógrafo amador, que também tocava, quando possível, no que estava para ser fotografado.

“A gente começou a conversar sobre quando ele fosse fazer uma entrevista. Pediria para o fotógrafo para passar na casa do entrevistado depois e tudo bem… Mas seria interessante ele ter essa desenvoltura, essa noção”, resume Lucarelli.

Disso tudo, como o aluno escolheu o que merecia ser fotografado? “Indiferentemente da imagem ter chance de ser bonita ou feia, para mim, fotografia é uma questão de registro”, diz, já ensaiando o lado repórter. E o monte de manga foi tateado. “Toquei e achei curioso. É fartura”… E clique!

‘Marciano do Teclado’ e da fotografia

Antes do jornalismo, Marciano Archanjo traba[/LEAD]lhava como músico. No antigo ofício, ele era o “Marciano do Teclado”. No repertório dos barzinhos, das festas de casamento, dos batizados e das formaturas que fazia, só música sertaneja. Às vezes, acompanhada de sanfona, que ele também domina.

“Toda vida, eles pensavam que eu ia fazer faculdade de música. Mas, na minha infância, ouvia os locutores de rádio dos programas sertanejos e pensava: Será que algum dia consigo ter o carisma desse cara?”. Passo a passo, Marciano vai descobrindo e trabalhando com os meios para isso. Afinal, o “sucesso é batata” só mesmo no cartaz flagrado em uma das imagens da série no Mercado Distrital do Cruzeiro.

Isso começou na palestra do fotógrafo Ricardos Bastos (fotojornalista do Hoje em Dia) sobre a importância da imagem associada ao texto jornalístico, ao despertar das possibilidades pessoais nos treinamentos com o atencioso técnico do laboratório, passou pela chancela da professora de fotografia e pelo reconhecimento do inédito trabalho com exposição individual na biblioteca.

“A ideia era entender como ele percebe o espaço por meio dos outros sentidos que tem”, lembra a professora Dunya Azevedo. “Fizemos questão de fazer esta exposição pois é uma maneira para deixar algo dele aqui no encerramento do semestre”, diz a coordenadora da biblioteca Priscila Reis. Vários alunos expõem em coletivas no espaço chamado “Mais Arte na Biblioteca”. Para Marciano, a exposição é especial pois é a primeira vez que a instituição recebe este tipo de criação individual.

“Eu achava que para fotografar tinha que enxergar. Mas eu te fotografo só por ouvir a direção da sua voz ou calcular a distância entre mim e esta mesa”, diz Marciano, tirando o celular do bolso, equipado com aplicativo de voz, e já fazendo uma foto da equipe, durante esta entrevista. Celular no peito, mira e foto no enquadramento certo!

Exposição “A Percepção do Mundo Sem o Campo Visual”, de hoje à 13 de junho, na biblioteca da Faculdade de Ciências Humanas, Sociais e da Saúde (FCH), na Universidade Fumec (rua Cobre, 200, Cruzeiro). Visitação: Segunda a sexta-feira, das 7h30 às 22h30. Sábado, das 8h às 14h. Entrada gratuita por meio de apresentação de documento de identidade com foto na portaria.

Fonte: jornal Hoje em Dia por Elemara Duarte.

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