Mãe de cadeirante constrói rampa para driblar falta de acessibilidade

Faça sol ou faça chuva, de segunda a sexta-feira, Maria de Fátima Coelho Rocha, 61 anos, empurra a cadeira de rodas da filha Ingrid Coelho de Assis, 25 anos, da casa onde moram, em Campo Grande, até a escola onde a jovem estuda. O trajeto tem aproximadamente um quilômetro. Em um dos trechos, a idosa construiu uma rampa de acesso à calçada.

Descrição da imagem: mãe empurrando a cadeira de sua filha cadeirante para auxiliá-la na subida ao passeio.

Para saber o motivo da falta de acessibilidade no local, o G1 entrou em contato com a prefeitura de Campo Grande. Por meio de assessoria, a administração municipal informou que está apurando a situação.

O caminho até a escola inclui ruas com subidas e descidas, que exigem mais esforço da idosa. “Ela não quer parar de estudar e, enquanto ela quiser ir para aula, vou continuar levando. Não temos dinheiro para pagar táxi toda vez que chove. Então, às vezes, vamos debaixo de chuva mesmo. Nunca consegui um carro para levar ela na escola, nem quando era pequeninha. Por isso eu carrego ela há 25 anos”, explicou.

Segundo Maria de Fátima, o caminho percorrido carece de acessibilidade em alguns pontos. Faltam rampas e calçadas adequadas. Para resolver o problema no ponto mais crítico do trajeto, ela construiu com as próprias mãos uma rampa que tem cerca de 1,5 metro de largura e um metro de comprimento. No local o desnível era em torno de 10 centímetros.

“Dei uma de ‘Pereirão’, peguei um carrinho de pedreiro, fui lá, coloquei cimento e fiz uma rampa, no começo do ano letivo de 2014”, contou referindo-se a personagem Griselda Pereira, interpretada pela atriz Lilia Cabral na novela Fina Estampa, da Rede Globo.

O local onde a rampa foi construída era um obstáculo para a dona de casa que tinha que redobrar o cuidado para não cair ou derrubar Ingrid. A jovem tem paralisia motora causada, segundo a mãe, por falta de oxigenação no cérebro durante o parto.

De casa à escola
Mãe e filha saem de casa cerca de uma hora antes do início da aula. Maria de Fátima conta que pessoas desconhecidas que encontram com elas pelo caminho oferecem ajuda e até carona de carro.

“Às vezes paro para descansar e nessas horas aparece algum carteiro, algum desconhecido e oferece ajuda pra empurrar a cadeira dela. E eu aceito porque não tenho mais tanta força assim. Agora se ela arranjar uma cadeira (de rodas) motorizada vai ser muito mais fácil, menos peso pra mim e mais segurança pra ela”, afirmou.

A atual cadeira de rodas da jovem foi um presente doado por uma paróquia de Campo Grande. “Moramos de favor aqui nessa casa, os donos moram na fazenda e eu cuido da casa para eles. Se não fossem esses anjos na minha vida eu não teria nem onde morar com a Ingrid”, desabafou.

Fisioterapia
A dificuldade de locomoção também impediu a garota de continuar a fisioterapia que fazia em uma universidade particular da cidade que oferece o serviço gratuito.

Antes Ingrid era levada à instituição de ensino por um veículo voluntário, mas o serviço não é mais oferecido. Maria de Fátima não tem carteira de motorista. Usar o transporte coletivo não é considerada uma opção viável para elas por conta dos horários.

“A Ingrid estuda à tarde, então teria que fazer fisioterapia de manhã. Para chegar na universidade no horário, temos que sair de casa muito mais cedo. Mas ela precisa dormir bem e também se atrasaria”, diz ela, explicando que a filha não conseguiria chegar antes do início da aula.

Superação
Apesar das limitações físicas, Ingrid não se deixa abalar e não quer parar de estudar, de treinar bocha, participar de campeonatos ou desfilar no Carnaval. Orgulhosa a mãe mostra os cadernos de estudo da filha e conta que a filha é o xodó da escola.

“Ela é meu pedaço de ouro. Faz amizade, é inteligente, gosta de conversar e ajudar as pessoas. Toda escola que ela entra eu falo para a professora que eles estão cuidando da minha joia preciosa”, lembrou.

Vizinha delas, Vanda Ajala Gonçalves, 62 anos, concorda com Maria de Fátima. “Admiro muito a alegria da Ingrid e o gosto dela em ajudar outras pessoas. Ela vive feliz, e vive arrecadando coisas para doar para outras pessoas, roupa de frio, sapato, brinquedo. É muito bonito de ver”, afirmou.

Sonho
De riso fácil e comunicativa, Ingrid conta que gosta de estudar e ler livros. Ela está no segundo ano do ensino médio e planeja cursar a faculdade de agronomia.

Além de se tornar engenheira agrônoma, a jovem tem outro sonho: poder andar. “É meu maior sonho e tudo que eu mais queria”, falou emocionada.

Ao falar sobre o pai de Ingrid, Maria de Fátima se emociona e conta que elas foram abandonadas por ele quando soube que a filha não poderia andar.

Fonte: site G1.com MS por Gabriela Pavão.

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