Implante coclear divide opiniões entre surdos

Marcela* perdeu a audição quase total ainda bebê, em decorrência de uma meningite. Com um ano e meio, começou a usar aparelho auditivo, daqueles externos, para estimular o sentido que havia perdido. Já adulta, aos 35, decidiu trocar por um implante coclear, que é colocado por dentro do ouvido interno. O fato lhe devolveu qualidade de vida e abriu portas, mas acabou afastando alguns amigos também surdos. Acontece que algumas pessoas da comunidade são contra o implante.

O argumento tem a ver com a manutenção da cultura surda e fortalecimento da comunidade. Magda Souto Rosa do Monte, 50, é surda e formada em Pedagogia e Letras-Libras. Ela é contra o implante coclear e defende que indivíduos surdos tenham a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como sua primeira língua. “Com a ilusão de que o filho poderá escutar normalmente num futuro próximo (com o implante), os pais não investem no aprendizado de Libras e seus filhos apresentam intensa dificuldade no desempenho escolar, pois não conseguem se comunicar bem através da língua apropriada”, argumenta.

Implantada, Marcela contesta a visão. “Eles (quem é contra o implante) alegam que o implante é como uma ‘cura’ para a surdez e que pode, segundo eles, enfraquecer o uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Mas isso não vai ocorrer, porque se eu tirar o aparelho eu não consigo escutar nada. Eu preciso saber Libras também para poder me comunicar sempre”, pontua.

Magda Souto comenta o uso do implante em crianças, tido por muitos pais como “salvação” para a deficiência. Ela alega que o implante ‘só faz com que as pessoas escutem ruídos e poucos sons’. “Quando os pais têm um filho surdo, muitas vezes são aconselhados pelos médicos a realizarem este procedimento e o fazem, pois acham que vai haver grandes resultados. Mas o progresso na audição não vem e, futuramente, traz arrependimentos, já que os ruídos provocam dores de cabeça frequentes e mal estar constante ao indivíduo surdo”, alerta.

Com apenas um ano e oito meses, a pequena Maria Fernanda também é implantada. Seus pais, Dellane e Bruno Mergulhão, não tiveram dúvidas quando ela foi diagnosticada com surdez bilateral severa: iriam recorrer ao implante. “Pouco depois de ela completar um ano, foi feita a cirurgia. Mais quarenta dias após, o aparelho foi ativado. A melhora foi gradativa: inicialmente, ela começou a responder quando Bruno chamava, por ter a voz mais grave; depois, começou a observar a minha voz”, lembra Dellane, com alegria.

Hoje, Maria Fernanda é vista pela família da mesma maneira que uma criança ouvinte sem implante. “Ela vê um cachorro e faz ‘au au’, ela pede água. Faz tudo que outras crianças fazem”, conta o pai, Bruno. Duas vezes por semana, a bebê faz fonoterapia, como parte da reabilitação oral. “O implante foi a melhor coisa que fizemos para nossa filha”, concordam os pais.

Como funciona
O implante coclear é um dispositivo que auxilia pessoas que não escutam a voltarem a ouvir. Ele transforma os sons do ambiente em impulsos elétricos, que são levados ao nervo auditivo, dentro da cóclea – daí o nome do aparelho.

Segundo a chefe do serviço de Otorrinolaringologia do Hospital Agamenon Magalhães, Mariana Leal, o uso do dispositivo permite melhor aproveitamento escolar, no caso de crianças, além de melhor socialização. “Em adultos, principalmente os que já adquiriram linguagem oral, o implante possibilita que haja melhor inserção no mercado de trabalho e melhora na qualidade de vida”, cita.

Para que o implante dê bons resultados, é fundamental, também, que a terapia fonoaudiológica esteja associada à reabilitação. “Após a cirurgia de implante, o paciente deve iniciar a fonoterapia, que deve ser realizada de forma sistemática, permitindo a reabilitação dessas pessoas”, orienta.

Há planos de saúde que cobrem a cirurgia do implante coclear, mas também é possível conseguir o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No Recife, o Hospital Agamenon Magalhães, no Parnamirim, e o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) oferecem a cirurgia gratuita.

*O nome da personagem foi alterado para preservar sua identidade.

Fonte: site da Folha de Pernambuco por Thomaz Vieira com foto de Úrsula Freire.

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