“Deficimpáticos ”X“ Deficichatos”?

Sou cadeirante há dezoito anos, desde então venho acompanhando a evolução do tema INCLUSÃO em nossa sociedade. Quando falamos em inclusão, geralmente pensamos apenas na obrigação de um lugar X oferecer adaptações a pessoas com deficiência como rampas de acesso, elevadores, piso tátil, provadores que caibam uma cadeira de rodas etc.

Sou um defensor do estatuto da pessoa com deficiência, luto por nossos direitos, filmo, fotografo, escrevo sobre inclusão e acessibilidade. Contudo uma coisa me deixa “P” da vida. Os “deficichatos”. Esses seres humanos vivem exclusivamente pra combater e denunciar lugares não adaptados. Denunciam bares, restaurantes, supermercados, igrejas, motéis (isso mesmo – deficiente também vai ao motel), estacionamento… Literalmente um porre. Essas criaturas acabam queimando o filme da gente, deficientes sem neura, que resolvem os problemas com um bom e civilizado diálogo.

Os “deficichatos” querem resolver o problema da falta de adaptação com rispidez, ao tratarem com funcionários, empresários etc, usam um tom agressivo na defesa de seus direitos. Acredito que isso só piora a situação, pois o estabelecimento fará a adaptação, pagará uma multa etc, mas serão mais intolerantes ao atenderem pessoas com deficiência, sejam os “deficinpáticos” ou os “deficichatos”. Justamente pela intolerância dos chatos, os simpáticos acabam pagando o pato sem entender o motivo de um mau atendimento e, possivelmente ficará irritado e terá grande probabilidade de tornar-se um chato.

Não estou dizendo que devemos ser passivos quanto ao descumprimento da lei de acessibilidade e mobilidade. Sou convicto de que devemos agir com educação e respeito, informando ou questionando o descumpridor da norma com – como diz minha mãe – FINESSE (palavrinha chique oriunda do francês) que significa nada mais, nada menos, que uma manobra sutil, delicada, uma manobra diplomática.
Confesso que euzinho, lindo e estudante de Direito (chato em dobro), já dei alguns “pitis” básicos com o intuito de obrigar o estabelecimento a resolver a demanda de adaptação quase que de imediato. Consegui, mas não CONQUISTEI o respeito dos funcionários ou dono do estabelecimento, justamente por eu EXIGIR ser respeitado. Conquistar e obrigar são verbos muito diferentes. Então, por favor, se você é ou conhece um “deficichato”, pare de queimar nosso filme “mermão” ou peça pra o seu amigo usar de um bom tom quanto a isso… Aja com educação, seja nobre, tente colocar o “andante” no seu lugar, faça com que ele imagine usar sua cadeira de rodas, moletas, bengalas, cão guia etc, traga ele pra o nosso universo e, tenha certeza que o primeiro sentimento que despertará no “cabra”, será a vergonha. Imediatamente ele terá iniciativa de resolver o problema. Tolerância, pessoal!

Se você tem rede social e só posta “coisinhas” sobre doenças, cadeira de rodas, adaptação pra porta da geladeira ou coisas assim, por favor, PARE. VIVA! Acredite se quiser, mas se postar textinhos lindos e fofinhos da Clarice Lispector, você será mais querido por seus amigos. Gente… Nós lutamos pra sermos reconhecidos como “normais”, mas a maioria age como coitados e vítimas. Assim não dá! Escreva sobre futebol, novela, critique a política, fale do BBB, a “Namaria” faz receitas maravilhosas (fale sobre isso também), seja uma pessoa. Só pessoa. Sua deficiência não pode te dominar e transformá-lo num coitado. Nós somos deficientes. O mundo, não. Queremos que o mundo se adapte a nossas necessidades. Mas nós estamos nos adaptando ao nosso meio?

Quebremos o mito que deficiente só se relaciona com deficiente. Por quê? Quem disse isso? Sejamos menos preconceituosos com a sociedade das pessoas SEM deficiência. Quando escolhemos não fazer algo como ir numa festa porque o lugar não é totalmente acessível, acredite, não estamos conscientizando a sociedade pra ser mais acessível, estamos deixando de aproveitar a vida e ponto final. Frequente praças, cafés, eventos, parques, igrejas, motéis, estacionamentos, estádios, e aproveite cada segundo ao lado de pessoas queridas do jeito que puder. Aí se tiver alguma demanda quanto à acessibilidade, resolva no final da festa, depois que se divertir. Não pire com o mundo. Queremos respeito, então devemos conquista-lo e não impor. Não seja “deficichato” que acredita que nós, deficientes, devemos ser blindados a críticas. Cara… Como assim? O fato de sermos deficientes, não nos transforma em heróis que não erra e que só fazem coisa boa. Podemos e devemos aceitar críticas. Se alguém critica-lo, tenha certeza que essa pessoa gosta muito de você e, quer ver sua evolução como pessoa, profissional, paciente etc.

ATENÇÃO: a fonte das matérias publicadas neste blog, sempre será indicada. Caso tenha alguma dúvida sobre a matéria ou algo nesse sentido, peço a gentileza em entrar em contato com os responsáveis pela a fonte.

Fonte: site G1.com por Tulio Mendhes.

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