A deficiência devia ser valor e não problema na escola, diz Ika Fleury

Incluir um aluno deficiente é permitir e desejar que ele participe de todas as atividades da escola, como todo e qualquer aluno. É assim que se define educação inclusiva para Ika Fleury, ex-primeira-dama do Estado de São Paulo e atual presidente do Conselho Curador da Fundação Dorina Nowill, uma instituição que trabalha há 70 anos pela inclusão de crianças, jovens e adultos cegos e com baixa visão.

Para ela, o conceito, apesar de aparentemente simples, ainda não é amplamente aplicado. Isso, na sua opinião, porque as gerações anteriores não conviveram com deficientes e ainda sentem dificuldades em lidar com a questão. Era uma época em que o costume era manter o deficiente dentro de casa, mais isolado.

O desafio, atualmente, é colocar em prática essa nova maneira de lidar com a deficiência– que é integrando o deficiente na escola, no trabalho e no convívio social. Apesar de o Brasil ter muita legislação a esse respeito, ainda não é corriqueiro encontrar instalações adequadas, materiais adaptados e profissionais treinados para lidar com essa situação, que pode ser tão complexa quanto enriquecedora.

No dia 17 de junho, São Paulo recebe um seminário de formação sobre o assunto, um evento promovido pela Fundação Dorina Nowill. Para colocar o assunto em debate, o UOL conversou com Ika Fleury:

UOL – Para a senhora, o que é educação inclusiva?

Ika Fleury – Para mim, educação inclusiva é querer que o aluno participe de todas as atividades. A escola precisa se recriar para um novo olhar, o da diferença. Nós somos diferentes, não somos? Se a escola tiver esse olhar da diferença como valor e não como problema, já é um grande passo.

Para o bom aprendizado, precisamos de políticas públicas, estratégias pedagógicas, das famílias e da gestão escolar. É necessário um olhar diferente para essa nova escola. Uma escola para todos que, é difícil de se fazer, mas é possível. Temos ilhas de excelência nesse sentido. São escolas que sofreram transformação e se dedicaram na formação de profissionais.

Aliás, mais importante do que a formação especial do professor, está o profissional que entende que precisa dar aula para todos e enxerga cada aluno individualmente. Educação inclusiva é aquela em que o aluno vai para a educação física, para o recreio, como qualquer outro. Essa educação vai além de se colocar a lei que obriga as escolas a receber os alunos deficientes.

UOL – As escolas brasileiras já estão preparadas para a educação inclusiva?

Ika Fleury – Na verdade, o Brasil precisa ter mais responsabilidade. As nossas leis são as mais adiantadas quanto ao direito dos deficientes, mas precisamos da prática.

A professora não tem apoio nem para conversar com uma orientadora ou em sala de aula. Às vezes, até existe um curso de formação, mas ela não sabe procurar. Os professores necessitam de uma estrutura que precisa ser mudada.

Existe todo um questionamento a ser feito em relação às famílias. Qual é o valor que a família dá para a educação? A família que tem um filho com deficiência entende o potencial da criança?

É preciso compreender que, no passado, a sociedade era muito diferente. Antes, a criança com deficiência ficava em casa ou numa instituição. Depois, veio o momento a integração. Hoje, é o momento da inclusão. Todos juntos querendo mudar a realidade das pessoas com deficiência.

UOL – Qual é a reação de pais de alunos não deficientes diante de um estudante deficiente? Existe preconceito?

Ika Fleury – Os pais e avós não são culpados de nada. Na geração deles, o convívio como deficiente não existia. Claro que existe o preconceito e uma série de problemas. Há o pensamento de que o estudante não deficiente não vai aprender porque a professora vai se dedicar ao aluno deficiente. Existem esses mitos.

Quando você tem uma sala com deficiente e a escola é bem estruturada, o aluno não deficiente leva uma forma diferente de pensar para dentro de casa.

Agora, do mesmo jeito que existe deficiência devia ser valor e não problema na escola, diz Ika Fleuryem pais que rejeitam, outros querem que o filho seja o mais solícito do mundo com o colega deficiente. É preciso ter equilíbrio. E também ter apoio. A Fundação Dorina Nowill apoia famílias e colégios, por exemplo. Ninguém sozinho pode fazer tudo.

Fonte: site UOL na parte de Educação. Thiago Varella Colaboração para o UOL, em Campinas (SP)

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